Hamilton ROdrigo Araújo Freire de Andrade
Santiago do Chile ai vou eu…
Maio 1, 2009
Aos que possam interessar;
Com a maturidade foi ficando mais fácil identificar as fases da minha vida. Os ciclos se sucedem, assim com o as estações do ano. Ao fazer tal constatação, que hoje me parece tão óbvia - embora nem sempre tenha sido assim -, dediquei-me a desenvolver uma capacidade de adaptação que agora me permite conviver quase que pacificamente com estes movimentos.
Digo isso porque neste momento comemoro o final de mais um ciclo. Ainda não sei qual será o próximo. E aprendi, também, a conviver sem muita angústia com esta etapa: a da incerteza. Quando ainda não sabemos o rumo que a vida vai seguir. Ou que rumo daremos a ela. Este compasso de espera. Este tempo que antecede cada passo, como um intervalo entre a inspiração e a expiração. Tempo de observar. Sentir. Principalmente sentir. Decidir sem pressa. Respirar. Um passo por vez. Deixando todas as sensações se manifestarem como quando andamos num terreno meio nebuloso e desconhecido. Despedida e comemoração. Comemoração.
Olho para trás com muito orgulho, porque reconheço uma bonita trajetória. Muitas vezes as pessoas que se apropriam do que é seu são vistas com maus olhos. Tenho o hábito de não omitir créditos a quem os têm de direito. Em contrapartida, não tenho mais pudor em me apropriar do que é meu. Por isso vejo, sem falsa modéstia, e reconheço os méritos do meu trabalho.
Nestes anos as dificuldades foram gigantescas. Mais uma vez, não entrarei em detalhes para não correr o risco de falar mais que devo, nem perder a elegância.
Dedicação, seriedade, rigor ético. Todas as minhas convicções postas à prova. A vontade de me superar sempre me acompanhou, em todos os momentos, não me deixando fraquejar. Infinitas noites sem dormir. Intensas e terríveis dores musculares. Tristeza. Muita tristeza. Momentos de topo e momentos de absoluto chão… Foi assim.
Não sou adepto das coisas mais fáceis. Nunca fui. Some-se a isso, o prazer que dá poder sentir, uma vez mais, o sabor de não ter medo da vida. Fazer parte dela, apenas. Com liberdade. Responsabilidade, audácia. E coragem. Aceitando o caminho. Lançando-me à aventura que é viver.
Agradeço a generosidade das pessoas que passaram pela minha vida. Agradeço às pessoas que trabalharam comigo; tenho admiração por muitas delas. O carinho dos que me acompanham. Agradeço aos que não foram levianos, e evitaram criticar antes de conhecer o meu trabalho e avaliar meu desempenho. Agradeço também aos meus questionadores e críticos que usaram do bom senso antes de atirar mais uma pedra. Aos que me apredejaram indignamente foi interessante saber que não é assim que se faz com as pessoas, mesmo quando a gente erra. Mas creiam o saldo é positivo. Tranquilo, e feliz pela sensação do dever cumprido, despeço-me desta fase.
Pretendo continuar mais presente do que nunca no meu blog. Não tenho planos. Corpo forte. Mente serena. Emoções equilibradas. Seguir em frente. Sempre seguir em frente. Porque, afinal, a vida insiste em pulsar mais forte.Sei que estarei muito longe de todos. Muito longe do espetáculo, as vezes, funesto das almas e dos corações.
Não sei o que a clandestinade me reserva, mas sigo como apenas um discipulo errante e navegante em busca do oásis abençoado.
Hamilton Rodrigo Araújo Freire de Andrade
sexta-feira, 1 de maio de 2009
sábado, 7 de março de 2009
Trabalho desenvolvido por Hamilton Rodrigo Araújo Freire de Andrade juntamente com a ONG "NOVA CONSCIÊNCIA"
O cenário da capital cearense de vida noturna agitada e de famosas praias mascara o submundo desconhecido de muitos. Tal como uma dona de casa que varre o lixo repentinamente para debaixo do tapete quando recebe uma visita inesperada, Fortaleza esconde o lixo de seus problemas sociais nos subúrbios, no intuito de transmitir uma imagem de cidade turística e hospitaleira.
O retrato trágico da realidade fortalezense se camufla entre as jovens meninas e adolescentes encontradas nas esquinas das ruas da orla urbana, em boates com entrada gratuita ou em casas de show com sexo explícito.
Essas jovens da periferia, muitas delas oriundas do interior do estado, excluídas pelo capitalismo exacerbado, sonham com um futuro promissor.
Quem são essas meninas? Algumas, donas de casa, que batalham para assegurar o sustento de suas famílias; outras, adolescentes sonhadoras em busca de conquista de espaço para serem notadas pela sociedade, atraídas pelo dinheiro fácil e pela perspectiva de uma vida mais digna.
Meninas sonhadoras, doces, de olhar vazio e sorriso triste, encobrem suas dores, mágoas e anseios, atrás das maquiagens chamativas e roupas apelativas. São as vítimas da prostituição de uma sociedade de descaso, falta de escrúpulos e egoísta.
Seja nos bares da Praia de Iracema ou nos pontos da orla marítima, quem ganha com tudo isso?
Fortaleza, hoje, vive o terrível drama do turismo internacional do sexo. O turista estrangeiro, ao chegar na capital cearense, depara-se com um farto leque de opções de mulheres, localizadas em locais estratégicos da cidade, para servir-lhe de ponto turístico em sua estadia sexual de férias.
Em entrevista a uma garota de programa de 20 anos, grávida de 04 meses, que não quis ser identificada, perguntamos inicialmente se ela sabia quem era o pai do filho que esperava. Ela respondeu: “Sim, é um gringo italiano, mas agora ele sumiu. Não consegui mais encontrá-lo e ele não sabe que estou grávida. Tentei tirar meu filho, mas ele não saiu”.
Questionando-a sobre sua rotina de trabalho, a jovem informou que todos os dias dirige-se ao ponto fixo situado em uma esquina da Praia de Iracema, onde permanece até às 6 horas da manhã, quando se recolhe para a casa do cafetão responsável pelo comando do “ponto”, onde dorme até o horário do almoço. Disse, ainda, que no período da tarde vai à casa da mãe, onde ajuda nos trabalhos domésticos, entregando-lhe metade do dinheiro que recebe.
Sobre o funcionamento dos “pontos” de prostituição, disse que todos aqueles situados na região têm cafetão, os quais são responsáveis pela garantia da segurança das meninas, anotando a placa do veículo do cliente. Em contrapartida, eles recebem em média 40% do valor faturado pelos programas. Disse, ainda, que normalmente as meninas não conhecem os cafetões dos outros pontos e que são muito ameaçadas por eles, caso resolvam ir até a delegacia. Não quis, por esse motivo, informar quem era o cafetão do seu ponto, pois estava com muito medo e olhava o tempo inteiro para os lados.
Ao indagarmos sobre os clientes que recebem, informou que muitos deles são gringos, assim como o pai do filho que ela espera, e que, segundo esse, muitos de seus amigos já vieram várias vezes a Fortaleza, atraídos exclusivamente pelo comércio sexual das belas meninas nativas.
Perguntamos se as autoridades frequentemente passam pelo local. Ela respondeu que somente o juizado de menores e, há aproximadamente 03 meses, uma delegada da polícia civil esteve fiscalizando a possível presença de menores, ocasião em que aconselhou-as a saírem dessa vida.
Informou-nos, ainda, que algumas vezes migra para as boates circunvizinhas, quando o movimento em seu ponto é pequeno, à procura dos gringos que ali se concentram em grande quantidade.
Ao circularmos pelo local mencionado na entrevista, uma região de antigo ponto de encontro dos jovens de Fortaleza, reunidos com seus violões, onde existiam bares com música popular brasileira e casa de boliche, constatamos, irresignadamente, a transformação ocorrida: um complexo de bares, abrangendo uma legião de turistas estrangeiros, assistindo, na passarela da rua, aos desfiles de meninas seminuas, aglomeradas, dançando apelativamente, onde ofereciam seus serviços explicitamente. Nesse chocante cenário, encontramos, ainda, algumas meninas caracterizadas, abordando gringos para convidá-los a entrar nas boates.
Perguntamos a uma dessas meninas se ela fazia programa. Ela disse ser apenas funcionária do estabelecimento, mas que se resolvesse entrar na boate, ela apresentaria belíssimas mulheres que atenderiam a esse propósito. Indagamos, ainda, sobre as condições de entrada dessa boate e obtivemos a seguinte resposta: “A entrada é grátis; apenas se cobra a consumação. No entanto, para mulheres desacompanhadas a bebida é liberada”.
Ao verificarmos a existência de viaturas da Ronda do Quarteirão, Policia Militar e Guarda Municipal que transitavam pelo local, questionamos sobre o posicionamento deles frente à realidade explícita daquelas boates. Todos responderam que nunca receberam denúncia ou qualquer tipo de ordem repressiva de autoridade superior. Que apenas atuam de forma preventiva em casos de flagrante presença de menores, violência ou consumo de drogas.
Perguntamos, ainda, para um agente da Guarda Municipal, se a Polícia Civil costuma transitar pela localidade. Fomos informados que durante 01 ano de trabalho na região, nunca foi constatada a presença de viatura da Polícia Civil. Já o agente da Ronda do Quarteirão, quando indagado a respeito da notoriedade do aliciamento da prostituição no local, disse infelizmente concordar com a existência desse panorama, mas que não lhe cabe nenhuma competência nesse sentido. “Nossa função é preventiva e o Direito funciona com provas concretas. As pessoas podem alegas que entram nas boates apenas para o divertimento e as meninas que convidam os clientes para entrarem na boate, iriam alegas apenas trabalharem como funcionárias de marketing da empresa”, disse ele. Disse, ainda, que não teria competência para tanto, caso contrário, estaria usando da arbitrariedade e que essa atividade fiscalizatória e repressiva caberia ao Ministério Público e a Polícia Civil.
Em uma esquina das ruas da Beira-Mar, encontramos duas meninas menores de idade, ambas de 17 anos. Conversando com uma delas, perguntamos o que levava uma adolescente com todo um futuro pela frente submeter-se a essa situação, informando-lhe que não poderíamos ser coniventes com essa situação e que a polícia deveria ser informada para tomar as providências cabíveis. A moça de rosto infantil, olhar assustado e piedoso suplicou: “Por favor, não façam isso! Estou aqui porque não existe trabalho para menor de idade. Meus pais já me colocaram no Conselho Tutelar e eu tenho um filho para sustentar”. Restou-nos o silêncio indignado perante tal cenário. Quem ampara essas jovens e adolescentes à margem da proteção social?
Que sociedade é essa que deixa sua terra transformar-se em um cenário sexual de exploradores estrangeiros, para usarem e abusarem de suas mulheres, à medida que usufruem de suas estadias sexuais?
Quais valores têm esse homens que cruzam o oceano para explorar as mulheres nativas da terra visitada?
O que encobrem os proprietários desses bares que oferecem entrada gratuita e bebida liberada para mulheres desacompanhadas, enquanto contratam “funcionárias” para instigar os gringos a entrarem nas boates?
Em que se transformou essa sociedade? Em troca de luxúria e poder, a dignidade, a base familiar e os sonhos de tantas meninas são dilacerados e flagelados por uma sociedade medíocre, elitista e egoísta.
Todos olham e não vêem. A família, a sociedade, o Estado: ninguém se importa. Enquanto isso, na bela capital cearense...vai tudo muito bem, obrigado!
O retrato trágico da realidade fortalezense se camufla entre as jovens meninas e adolescentes encontradas nas esquinas das ruas da orla urbana, em boates com entrada gratuita ou em casas de show com sexo explícito.
Essas jovens da periferia, muitas delas oriundas do interior do estado, excluídas pelo capitalismo exacerbado, sonham com um futuro promissor.
Quem são essas meninas? Algumas, donas de casa, que batalham para assegurar o sustento de suas famílias; outras, adolescentes sonhadoras em busca de conquista de espaço para serem notadas pela sociedade, atraídas pelo dinheiro fácil e pela perspectiva de uma vida mais digna.
Meninas sonhadoras, doces, de olhar vazio e sorriso triste, encobrem suas dores, mágoas e anseios, atrás das maquiagens chamativas e roupas apelativas. São as vítimas da prostituição de uma sociedade de descaso, falta de escrúpulos e egoísta.
Seja nos bares da Praia de Iracema ou nos pontos da orla marítima, quem ganha com tudo isso?
Fortaleza, hoje, vive o terrível drama do turismo internacional do sexo. O turista estrangeiro, ao chegar na capital cearense, depara-se com um farto leque de opções de mulheres, localizadas em locais estratégicos da cidade, para servir-lhe de ponto turístico em sua estadia sexual de férias.
Em entrevista a uma garota de programa de 20 anos, grávida de 04 meses, que não quis ser identificada, perguntamos inicialmente se ela sabia quem era o pai do filho que esperava. Ela respondeu: “Sim, é um gringo italiano, mas agora ele sumiu. Não consegui mais encontrá-lo e ele não sabe que estou grávida. Tentei tirar meu filho, mas ele não saiu”.
Questionando-a sobre sua rotina de trabalho, a jovem informou que todos os dias dirige-se ao ponto fixo situado em uma esquina da Praia de Iracema, onde permanece até às 6 horas da manhã, quando se recolhe para a casa do cafetão responsável pelo comando do “ponto”, onde dorme até o horário do almoço. Disse, ainda, que no período da tarde vai à casa da mãe, onde ajuda nos trabalhos domésticos, entregando-lhe metade do dinheiro que recebe.
Sobre o funcionamento dos “pontos” de prostituição, disse que todos aqueles situados na região têm cafetão, os quais são responsáveis pela garantia da segurança das meninas, anotando a placa do veículo do cliente. Em contrapartida, eles recebem em média 40% do valor faturado pelos programas. Disse, ainda, que normalmente as meninas não conhecem os cafetões dos outros pontos e que são muito ameaçadas por eles, caso resolvam ir até a delegacia. Não quis, por esse motivo, informar quem era o cafetão do seu ponto, pois estava com muito medo e olhava o tempo inteiro para os lados.
Ao indagarmos sobre os clientes que recebem, informou que muitos deles são gringos, assim como o pai do filho que ela espera, e que, segundo esse, muitos de seus amigos já vieram várias vezes a Fortaleza, atraídos exclusivamente pelo comércio sexual das belas meninas nativas.
Perguntamos se as autoridades frequentemente passam pelo local. Ela respondeu que somente o juizado de menores e, há aproximadamente 03 meses, uma delegada da polícia civil esteve fiscalizando a possível presença de menores, ocasião em que aconselhou-as a saírem dessa vida.
Informou-nos, ainda, que algumas vezes migra para as boates circunvizinhas, quando o movimento em seu ponto é pequeno, à procura dos gringos que ali se concentram em grande quantidade.
Ao circularmos pelo local mencionado na entrevista, uma região de antigo ponto de encontro dos jovens de Fortaleza, reunidos com seus violões, onde existiam bares com música popular brasileira e casa de boliche, constatamos, irresignadamente, a transformação ocorrida: um complexo de bares, abrangendo uma legião de turistas estrangeiros, assistindo, na passarela da rua, aos desfiles de meninas seminuas, aglomeradas, dançando apelativamente, onde ofereciam seus serviços explicitamente. Nesse chocante cenário, encontramos, ainda, algumas meninas caracterizadas, abordando gringos para convidá-los a entrar nas boates.
Perguntamos a uma dessas meninas se ela fazia programa. Ela disse ser apenas funcionária do estabelecimento, mas que se resolvesse entrar na boate, ela apresentaria belíssimas mulheres que atenderiam a esse propósito. Indagamos, ainda, sobre as condições de entrada dessa boate e obtivemos a seguinte resposta: “A entrada é grátis; apenas se cobra a consumação. No entanto, para mulheres desacompanhadas a bebida é liberada”.
Ao verificarmos a existência de viaturas da Ronda do Quarteirão, Policia Militar e Guarda Municipal que transitavam pelo local, questionamos sobre o posicionamento deles frente à realidade explícita daquelas boates. Todos responderam que nunca receberam denúncia ou qualquer tipo de ordem repressiva de autoridade superior. Que apenas atuam de forma preventiva em casos de flagrante presença de menores, violência ou consumo de drogas.
Perguntamos, ainda, para um agente da Guarda Municipal, se a Polícia Civil costuma transitar pela localidade. Fomos informados que durante 01 ano de trabalho na região, nunca foi constatada a presença de viatura da Polícia Civil. Já o agente da Ronda do Quarteirão, quando indagado a respeito da notoriedade do aliciamento da prostituição no local, disse infelizmente concordar com a existência desse panorama, mas que não lhe cabe nenhuma competência nesse sentido. “Nossa função é preventiva e o Direito funciona com provas concretas. As pessoas podem alegas que entram nas boates apenas para o divertimento e as meninas que convidam os clientes para entrarem na boate, iriam alegas apenas trabalharem como funcionárias de marketing da empresa”, disse ele. Disse, ainda, que não teria competência para tanto, caso contrário, estaria usando da arbitrariedade e que essa atividade fiscalizatória e repressiva caberia ao Ministério Público e a Polícia Civil.
Em uma esquina das ruas da Beira-Mar, encontramos duas meninas menores de idade, ambas de 17 anos. Conversando com uma delas, perguntamos o que levava uma adolescente com todo um futuro pela frente submeter-se a essa situação, informando-lhe que não poderíamos ser coniventes com essa situação e que a polícia deveria ser informada para tomar as providências cabíveis. A moça de rosto infantil, olhar assustado e piedoso suplicou: “Por favor, não façam isso! Estou aqui porque não existe trabalho para menor de idade. Meus pais já me colocaram no Conselho Tutelar e eu tenho um filho para sustentar”. Restou-nos o silêncio indignado perante tal cenário. Quem ampara essas jovens e adolescentes à margem da proteção social?
Que sociedade é essa que deixa sua terra transformar-se em um cenário sexual de exploradores estrangeiros, para usarem e abusarem de suas mulheres, à medida que usufruem de suas estadias sexuais?
Quais valores têm esse homens que cruzam o oceano para explorar as mulheres nativas da terra visitada?
O que encobrem os proprietários desses bares que oferecem entrada gratuita e bebida liberada para mulheres desacompanhadas, enquanto contratam “funcionárias” para instigar os gringos a entrarem nas boates?
Em que se transformou essa sociedade? Em troca de luxúria e poder, a dignidade, a base familiar e os sonhos de tantas meninas são dilacerados e flagelados por uma sociedade medíocre, elitista e egoísta.
Todos olham e não vêem. A família, a sociedade, o Estado: ninguém se importa. Enquanto isso, na bela capital cearense...vai tudo muito bem, obrigado!
sábado, 7 de fevereiro de 2009
Opinião de Hamilton Rodrigo Araújo Freire de Andrade sobre o caso Battisti...de sobre BATIT}}
Quem lembra dos Documentos do Pentágono publicados pelo New York Times, em 1971? Trata-se de um relato absolutamente secreto e crítico do papel dos Estados Unidos na Indochina entre a 2ª Guerra Mundial e maio de 1968. Neles, estavam retratadas todas as farsas e manipulações dos Estados Unidos na guerra do Vietnã. Hannah Arendt, a grande filosofa liberal, num ensaio que deveria ser lido e relido por comunicadores, faz uma crítica devastadora ao que define como "arcana imperii" (os mistérios do governo) ao tratar do tema em A mentira na política (1).
"A veracidade nunca esteve entre as virtudes políticas, e mentiras sempre foram encaradas como instrumentos justificáveis nesses assuntos. Quem quer que reflita sob essas questões ficará surpreso pela pouca atenção que tem sido dada ao seu significado na nossa tradição de pensamento político e filosófico, por um lado, e por outro, pela natureza da nossa capacidade de negar em pensamento e palavras quaisquer que seja o caso. Essa capacidade atuante e agressiva é bem diferente de nossa passiva suscetibilidade em sermos vítimas de erros, ilusões, distorções de memória, e tudo que passa a ser culpado pelas falhas de nossos mecanismos sensuais e mentais".
Arandt escreveu essas palavras no contexto da crise de credibilidade que se instaurou no governo americano com a publicação dos Papéis do Pentágono. Na essência, condenava a distorção deliberada dos fatos pelo governo, ao esconder da sociedade a verdade sobre a guerra, e defendia a ação da sociedade para agir em defesa da liberdade. Afirmava: "Somos livres para reformar o mundo e começar algo novo". Cito as palavras de Arandt, conhecida pela sua veemente condenação a qualquer forma de totalitarismo, a propósito do caso Battisti. Há, por parte do governo italiano, uma deliberada tentativa de manipular os fatos ao exigir que o ex-militante de esquerda, acusado de cometer assassinatos, seja extraditado. O discurso é, à primeira vista, favorável a um dos pilares maiores da democracia: a aplicação da justiça. Encanta e mobiliza aos que veem a história de forma isolada ou se deixam seduzir pela realidade em preto e branco. Bons e maus, justos e criminosos, vítimas e carrascos e assim sucessivamente. Na verdade, o discurso do governo italiano não é autônomo. É, sim, o momento de um discurso maior. Aproveita-se da mobilização da guerra aberta ao terrorismo que se seguiu ao 11 de setembro, liderada por Bush (e que tem sido aceita sem questionamentos maiores inclusive por grande parte da esquerda), para camuflar uma crescente guinada autoritária. Testemunha desta realidade é a legislação que se propõe a transformar médicos em espiões, ao induzi-los a denunciar imigrantes clandestinos. Testemunha dessa realidade é o fato do governo alinhar-se com o que existe de sombrio em termos de racismo, de militarismo e manipulação de informação. Testemunha dessa realidade é a crescente pressão sobre a soberania brasileira.
Tudo isso, o STF deve levar em conta ao julgar o caso Battisti. Mas não é só o STF é a sociedade brasileira e seus representantes. O que está em jogo é mais do que o direito do Brasil dar asilo a um perseguido político. É rendição ou não a um discurso de aparências e um discurso calcado na realidade. Ao contrário dos romanos, o Brasil não tem uma história milenar, nem foi jamais um império mundi. Não registra nada semelhante à republica mista tão bem descrita pelo historiador Políbios nos primeiros 50 anos de ascensão do império, anteriores a era cristã, e que deu alicerce a uma república que tinha entre os seus grandes méritos o incentivo ao conflito entre a plebe e o senado para que as leis fossem legitimas e socialmente justas. E a virtù do respeito à constituição e autêntica aversão à corrupção. A lista de diferenças históricas é quase interminável, mas uma coisa é certa. No caso Battisti, o governo brasileiro está trabalhando a favor da história da democracia. E o governo italiano não. Aqui, por questionável que possa ser, houve uma anistia para os dois lados em confronto nos anos da ditadura militar. Na Itália, o embate com as organizações de esquerda na década de 70, embora o país vivesse numa democracia, nunca foi tema de uma anistia. São contextos diversos, mas a essência é a mesma: a distinção histórica entre o que é aparência e o que é realidade, o que é fato e o que é manipulação dos fatos. O abuso do conceito de verdade é a máscara que oculta a verdadeira face do caso Battisti. O que o governo italiano está fazendo é condenando o direito de asilo a que tem direito o militante em nome da razão da justiça. Sua atitude deve ser entendida em uma dimensão crítica da realidade italiana e mundial, no que se refere ao avanço do conservadorismo e às restrições à liberdade em nome do combate ao terrorismo, e não somente por um fato isolado. Vale lembrar que à época dos Papéis do Pentágono os EUA também era uma democracia. E que no curso da sua história bicentenária tinha libertado a Itália do fascismo. Em suma, a despeito dos impasses históricos, o respeito à verdade não é uma característica própria da política. Por isso, casos como os de Battisti precisam ser vistos à luz dada sua face oculta não da sua fase visível.
"A veracidade nunca esteve entre as virtudes políticas, e mentiras sempre foram encaradas como instrumentos justificáveis nesses assuntos. Quem quer que reflita sob essas questões ficará surpreso pela pouca atenção que tem sido dada ao seu significado na nossa tradição de pensamento político e filosófico, por um lado, e por outro, pela natureza da nossa capacidade de negar em pensamento e palavras quaisquer que seja o caso. Essa capacidade atuante e agressiva é bem diferente de nossa passiva suscetibilidade em sermos vítimas de erros, ilusões, distorções de memória, e tudo que passa a ser culpado pelas falhas de nossos mecanismos sensuais e mentais".
Arandt escreveu essas palavras no contexto da crise de credibilidade que se instaurou no governo americano com a publicação dos Papéis do Pentágono. Na essência, condenava a distorção deliberada dos fatos pelo governo, ao esconder da sociedade a verdade sobre a guerra, e defendia a ação da sociedade para agir em defesa da liberdade. Afirmava: "Somos livres para reformar o mundo e começar algo novo". Cito as palavras de Arandt, conhecida pela sua veemente condenação a qualquer forma de totalitarismo, a propósito do caso Battisti. Há, por parte do governo italiano, uma deliberada tentativa de manipular os fatos ao exigir que o ex-militante de esquerda, acusado de cometer assassinatos, seja extraditado. O discurso é, à primeira vista, favorável a um dos pilares maiores da democracia: a aplicação da justiça. Encanta e mobiliza aos que veem a história de forma isolada ou se deixam seduzir pela realidade em preto e branco. Bons e maus, justos e criminosos, vítimas e carrascos e assim sucessivamente. Na verdade, o discurso do governo italiano não é autônomo. É, sim, o momento de um discurso maior. Aproveita-se da mobilização da guerra aberta ao terrorismo que se seguiu ao 11 de setembro, liderada por Bush (e que tem sido aceita sem questionamentos maiores inclusive por grande parte da esquerda), para camuflar uma crescente guinada autoritária. Testemunha desta realidade é a legislação que se propõe a transformar médicos em espiões, ao induzi-los a denunciar imigrantes clandestinos. Testemunha dessa realidade é o fato do governo alinhar-se com o que existe de sombrio em termos de racismo, de militarismo e manipulação de informação. Testemunha dessa realidade é a crescente pressão sobre a soberania brasileira.
Tudo isso, o STF deve levar em conta ao julgar o caso Battisti. Mas não é só o STF é a sociedade brasileira e seus representantes. O que está em jogo é mais do que o direito do Brasil dar asilo a um perseguido político. É rendição ou não a um discurso de aparências e um discurso calcado na realidade. Ao contrário dos romanos, o Brasil não tem uma história milenar, nem foi jamais um império mundi. Não registra nada semelhante à republica mista tão bem descrita pelo historiador Políbios nos primeiros 50 anos de ascensão do império, anteriores a era cristã, e que deu alicerce a uma república que tinha entre os seus grandes méritos o incentivo ao conflito entre a plebe e o senado para que as leis fossem legitimas e socialmente justas. E a virtù do respeito à constituição e autêntica aversão à corrupção. A lista de diferenças históricas é quase interminável, mas uma coisa é certa. No caso Battisti, o governo brasileiro está trabalhando a favor da história da democracia. E o governo italiano não. Aqui, por questionável que possa ser, houve uma anistia para os dois lados em confronto nos anos da ditadura militar. Na Itália, o embate com as organizações de esquerda na década de 70, embora o país vivesse numa democracia, nunca foi tema de uma anistia. São contextos diversos, mas a essência é a mesma: a distinção histórica entre o que é aparência e o que é realidade, o que é fato e o que é manipulação dos fatos. O abuso do conceito de verdade é a máscara que oculta a verdadeira face do caso Battisti. O que o governo italiano está fazendo é condenando o direito de asilo a que tem direito o militante em nome da razão da justiça. Sua atitude deve ser entendida em uma dimensão crítica da realidade italiana e mundial, no que se refere ao avanço do conservadorismo e às restrições à liberdade em nome do combate ao terrorismo, e não somente por um fato isolado. Vale lembrar que à época dos Papéis do Pentágono os EUA também era uma democracia. E que no curso da sua história bicentenária tinha libertado a Itália do fascismo. Em suma, a despeito dos impasses históricos, o respeito à verdade não é uma característica própria da política. Por isso, casos como os de Battisti precisam ser vistos à luz dada sua face oculta não da sua fase visível.
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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Criticar a mídia ?
Criticar a mídia?
Promoção! Compre este maravilhoso produto, mas não perca o próximo capítulo. Neste número, transmitiremos ao vivo assim que você nos adicionar aos seus favoritos. Extra, extra! As últimas notícias, em breve, numa sala perto de você. É, meu caro, vivemos numa sociedade midiatizada.
Nossa sociedade
A sociedade midiatizada é aquela na qual os veículos de comunicação de massa têm uma presença tão significativa na vida social que mesmo as trocas simbólicas entre os sujeitos (a interação ou a comunicação entre eles) se relacionam com o que é posto em circulação pela mídia. Para o pesquisador em comunicação Muniz Sodré Cabral, “na sociedade mediatizada, as instituições, as práticas sociais e culturais articulam-se diretamente com os meios de comunicação, de tal maneira que a mídia se torna progressivamente o lugar por excelência da produção social do sentido.“ (CABRAL, 2001, p. 27)
Justamente por ocupar um papel tão central na atualidade é que se justifica a importância da análise dos veículos de comunicação e suas implicações na sociedade. Pode-se definir que analisar a mídia é repensar aquilo que é veiculado, tentar compreender as etapas de produção da indústria midiática, analisar os condicionantes sócio e históricos da mídia, observar as relações de poder entre os veículos de comunicação e outras instituições, etc. Ou seja, tentar, de alguma forma, apropriar-se do que é transmitido pela mídia e desenvolver uma reflexão que extrapole este sentido inicial.
Para o teórico da comunicação, José Luiz Braga, esta apropriação do que a mídia circula é realizada pelas pessoas cotidianamente. Ao invés de perceber os sujeitos como receptores passivos em relação à mídia, Braga afirma que as pessoas discutem, questionam e retrabalham o que vêem nos jornais, no cinema, na publicidade. O pesquisador ainda completa esse “sistema de resposta social” com a possibilidade dessas pessoas se organizarem para responder à mídia com comentários, sugestões e mesmo críticas. É o que ocorre através das cartas e e-mails de leitores; das manifestações públicas; da intervenção de instituições a exemplo do Ministério Público; e dos observatórios especializados em crítica de mídia, como o Mídia em Pauta.
Nossa crítica
O filósofo Michel Foucault, comentou que a crítica, antes de tentar determinar o que é verdade e o que é mentira, deve apontar para os próprios mecanismos envolvidos na produção dessas verdades ou mentiras. Para ele, a crítica tem potencial libertador justamente por tentar explicitar o funcionamento do que nos governa, inclusive os limites do nosso próprio conhecimento.
O objetivo da crítica de mídia é justamente aplicar este movimento aos veículos de comunicação e suas relações com a sociedade. Não enxergar a indústria midiática como mera transmissora de informação, e sim como uma série de agentes complexos, heterogêneos, históricos e dotados de interesses específicos.
Desta forma, a crítica de mídia costuma ser relacionada à democracia ou ao direito à informação. Se por um lado os veículos de comunicação são cruciais para os processos democráticos numa sociedade, a mídia também deve ser investigada e mesmo criticada já que continua sendo uma instituição com seus interesses e limitações.
Promoção! Compre este maravilhoso produto, mas não perca o próximo capítulo. Neste número, transmitiremos ao vivo assim que você nos adicionar aos seus favoritos. Extra, extra! As últimas notícias, em breve, numa sala perto de você. É, meu caro, vivemos numa sociedade midiatizada.
Nossa sociedade
A sociedade midiatizada é aquela na qual os veículos de comunicação de massa têm uma presença tão significativa na vida social que mesmo as trocas simbólicas entre os sujeitos (a interação ou a comunicação entre eles) se relacionam com o que é posto em circulação pela mídia. Para o pesquisador em comunicação Muniz Sodré Cabral, “na sociedade mediatizada, as instituições, as práticas sociais e culturais articulam-se diretamente com os meios de comunicação, de tal maneira que a mídia se torna progressivamente o lugar por excelência da produção social do sentido.“ (CABRAL, 2001, p. 27)
Justamente por ocupar um papel tão central na atualidade é que se justifica a importância da análise dos veículos de comunicação e suas implicações na sociedade. Pode-se definir que analisar a mídia é repensar aquilo que é veiculado, tentar compreender as etapas de produção da indústria midiática, analisar os condicionantes sócio e históricos da mídia, observar as relações de poder entre os veículos de comunicação e outras instituições, etc. Ou seja, tentar, de alguma forma, apropriar-se do que é transmitido pela mídia e desenvolver uma reflexão que extrapole este sentido inicial.
Para o teórico da comunicação, José Luiz Braga, esta apropriação do que a mídia circula é realizada pelas pessoas cotidianamente. Ao invés de perceber os sujeitos como receptores passivos em relação à mídia, Braga afirma que as pessoas discutem, questionam e retrabalham o que vêem nos jornais, no cinema, na publicidade. O pesquisador ainda completa esse “sistema de resposta social” com a possibilidade dessas pessoas se organizarem para responder à mídia com comentários, sugestões e mesmo críticas. É o que ocorre através das cartas e e-mails de leitores; das manifestações públicas; da intervenção de instituições a exemplo do Ministério Público; e dos observatórios especializados em crítica de mídia, como o Mídia em Pauta.
Nossa crítica
O filósofo Michel Foucault, comentou que a crítica, antes de tentar determinar o que é verdade e o que é mentira, deve apontar para os próprios mecanismos envolvidos na produção dessas verdades ou mentiras. Para ele, a crítica tem potencial libertador justamente por tentar explicitar o funcionamento do que nos governa, inclusive os limites do nosso próprio conhecimento.
O objetivo da crítica de mídia é justamente aplicar este movimento aos veículos de comunicação e suas relações com a sociedade. Não enxergar a indústria midiática como mera transmissora de informação, e sim como uma série de agentes complexos, heterogêneos, históricos e dotados de interesses específicos.
Desta forma, a crítica de mídia costuma ser relacionada à democracia ou ao direito à informação. Se por um lado os veículos de comunicação são cruciais para os processos democráticos numa sociedade, a mídia também deve ser investigada e mesmo criticada já que continua sendo uma instituição com seus interesses e limitações.
A mídia está aí, presente em nossa sociedade e nos interpelando cotidianamente. Impressos, rádio, cinema, televisão, vídeo, internet – um sem fim de veículos de comunicação que nos sugere o que vestir, em quem votar, pra qual mocinho torcer e sobre o quê será nossa próxima conversa de elevador. Alguém viu a novela de ontem?
Shazam! Como não somos partidários de teorias de balas mágicas, acreditamos que essa mesma mídia pode e deve ser alvo de análises, problematizações e mesmo questionamentos. E o objetivo é justamente este: olhar para os veículos de comunicação com um olhar crítico.
É necessário realçar que criticar a mídia não significa "fazer cara feia" para os produtos midiáticos. O crítico não é (ou não deveria ser) um ranzinza embirrado em relação ao mundo. A crítica de mídia pode ser entendida como um esforço de compreensão dos mais variados elementos envolvidos nos meios de comunicação: de fatores econômicos a contextos culturais, de éticas profissionais a novas tecnologias.
Assista a reportagem abaixo para ver a opinião de profissionais de comunicação sobre crítica de mídia.
Shazam! Como não somos partidários de teorias de balas mágicas, acreditamos que essa mesma mídia pode e deve ser alvo de análises, problematizações e mesmo questionamentos. E o objetivo é justamente este: olhar para os veículos de comunicação com um olhar crítico.
É necessário realçar que criticar a mídia não significa "fazer cara feia" para os produtos midiáticos. O crítico não é (ou não deveria ser) um ranzinza embirrado em relação ao mundo. A crítica de mídia pode ser entendida como um esforço de compreensão dos mais variados elementos envolvidos nos meios de comunicação: de fatores econômicos a contextos culturais, de éticas profissionais a novas tecnologias.
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